Projetos apoiados pela Funarbe evidenciam o protagonismo feminino na pesquisa e na inovação.
A ciência avança quando mais mulheres ocupam espaços de liderança, produzem conhecimento e transformam pesquisa em impacto social. Em diferentes áreas, pesquisadoras impulsionam a inovação tecnológica, fortalecem soluções sustentáveis para desafios sociais e ambientais e ampliam o alcance da ciência na sociedade.
Nesse contexto, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, convida à reflexão sobre a presença feminina na produção científica e sobre os caminhos necessários para tornar a ciência mais diversa, equitativa e representativa. Essa pauta está alinhada à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que define a equidade de gênero como o 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Diante desse cenário, a Funarbe atua diretamente para ampliar o protagonismo feminino na ciência ao apoiar e viabilizar projetos de pesquisa liderados por mulheres em diferentes áreas do conhecimento. Ao oferecer suporte técnico e administrativo, a Fundação fortalece a presença feminina na liderança científica e impulsiona a qualidade das pesquisas desenvolvidas.
Mulheres na acadêmia: avanços, desafios e desigualdades
Apesar dos avanços, a desigualdade de gênero na ciência ainda é um desafio global. Segundo relatório da UNESCO, as mulheres representam cerca de 33% dos pesquisadores no mundo e apenas 35% dos estudantes nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), evidenciando as barreiras ao acesso e à permanência nas carreiras científicas.
Na América Latina e no Caribe, a participação feminina é maior: aproximadamente 45% dos pesquisadores são mulheres, de acordo com dados da UNESCO e da OCDE. Ainda assim, elas permanecem menos presentes em cargos de liderança e em áreas de alta intensidade tecnológica.
Essa dinâmica também se reflete no Brasil, onde dados da CAPES indicam que as mulheres são maioria entre estudantes de graduação e pós-graduação, mas ocupam menos posições de coordenação de projetos e liderança. O relatório “Em direção à equidade de gênero na pesquisa no Brasil”, da Elsevier em parceria com a Bori, mostra que a participação feminina nas publicações científicas cresceu de 38% em 2002 para 49% em 2022, colocando o país entre os que apresentam maior presença de mulheres na ciência, atrás apenas da Argentina e de Portugal.
A diversidade de gênero na ciência, além de uma questão de equidade, é um fator estratégico de inovação. Sob essa perspectiva, relatório da McKinsey, firma global de consultoria de gestão estratégica, aponta que organizações com maior diversidade de gênero têm até 27% mais de chances de apresentar desempenho financeiro acima da média.
Nesse sentido, o desafio não está apenas em ampliar o acesso das mulheres à ciência, mas também em garantir condições para sua permanência, reconhecimento e liderança no sistema de pesquisa.
Lideranças femininas em projetos apoiados pela Funarbe
Diante disso, o papel das fundações de apoio se torna estratégico, viabilizando a gestão de projetos científicos em parceria com as IFES e ICTs, gerando novas oportunidades para a participação feminina. Então, ao fortalecer a atuação de pesquisadoras e iniciativas com equipes diversas, a Funarbe contribui para a consolidação de um ambiente científico mais plural, inovador e representativo. Sob essa ótica, a seguir destacamos projetos apoiados pela Funarbe em que mulheres estão à frente da produção de conhecimento e da transformação social.
Saúde pública e gênero: ciência feita por e para mulheres

Autocoleta para teste de HPV em mulheres não rastreadas para o câncer cervical
Claudia Martins Carneiro (UFOP)
O projeto coordenado pela pesquisadora e professora Claudia Martins Carneiro, da UFOP, é um estudo multicêntrico vinculado ao Ministério da Saúde que propõe uma estratégia inovadora para ampliar o rastreamento do câncer do colo do útero: a autocoleta e o teste de HPV em mulheres que não realizam exames regulares.
A iniciativa enfrenta um dos principais desafios da saúde pública no Brasil: o diagnóstico tardio do câncer cervical, que ainda figura entre as principais causas de morte por câncer entre mulheres, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Desse modo, caracterizando a união da ciência aplicada, tecnologia e políticas de prevenção, o projeto amplia o acesso ao diagnóstico e contribui para reduzir desigualdades no cuidado à saúde feminina. Além disso, por se tratar de um projeto que dialoga diretamente com as mulheres, ele também se desenvolve por atividades extensionistas, como o desenvolvimento de materiais de apoio para desmistificar estigmas e ampliar o conhecimento sobre o tema.
Com isso, a pesquisa além de ser uma inovação técnica, também simboliza o protagonismo de mulheres na construção de soluções para a saúde de outras mulheres.
“Liderar este projeto na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) é a materialização de um compromisso com a saúde pública e com a formação de novas cientistas.
Acredito que exercer uma liderança feminina na ciência vai além da gestão técnica de dados; trata-se de aplicar sensibilidade e empatia para identificar lacunas que afetam diretamente outras mulheres. No projeto de autocoleta, utilizamos tecnologia para devolver autonomia e dignidade a mulheres fora do sistema de rastreio tradicional. Ver esse impacto na ponta, através do treinamento de Agentes Comunitários e do contato direto com a comunidade, reforça que o nosso papel é humanizar a inovação.
Além disso, como coordenadora, sinto um orgulho imenso em ver o protagonismo de jovens pesquisadoras, que conduzem este projeto com excelência. Quando mulheres pesquisam soluções para outras mulheres, o resultado é uma ciência mais assertiva, representativa e profundamente conectada com as necessidades da nossa sociedade. Fortalecer esses espaços de liderança feminina é garantir que a ciência brasileira continue avançando com um olhar atento à equidade e ao cuidado.” — Claudia Martins Carneiro
Biotecnologia e empreendedorismo científico

A.fago: soluções biotecnológicas
Poliane Alfenas Zerbini (UFV)
A startup A.fago, idealizada pela pesquisadora e professora Poliane Alfenas Zerbini, por meio do Edital da FAPEMIG: Cientista Empreendedor, integra o tecnoPARQ — Parque Tecnológico de Viçosa, vinculado à UFV, sob a direção da Prof.ª Adriana Ferreira de Faria.
A iniciativa é voltada ao desenvolvimento de soluções sustentáveis para o controle de fitopatógenos na agricultura, utilizando bacteriófagos como alternativa aos defensivos químicos tradicionais. Resultado da articulação entre pesquisa científica, instrumentos públicos de fomento à inovação e ações de transferência de conhecimento para a sociedade, o projeto exemplifica o potencial da pesquisa para transformar o setor agrícola e impulsionar modelos produtivos mais sustentáveis.
Com forte vínculo com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), parceira histórica da Funarbe, a iniciativa evidencia o papel de mulheres na liderança de projetos de alta complexidade tecnológica e na articulação entre universidade, mercado e sociedade.
“Idealizar a A.Fago no contexto da chamada Cientista Empreendedor da FAPEMIG foi, para mim, uma forma concreta de afirmar que a ciência produzida na universidade pública pode gerar soluções responsáveis e sustentáveis para a agricultura. Transformar conhecimento científico em inovação exige não apenas rigor técnico, mas também ambientes institucionais que reconheçam e valorizem trajetórias diversas. Nesse sentido, é fundamental ampliar e fortalecer espaços e oportunidades para a atuação de mulheres na ciência, na inovação e no setor agrícola.” — Poliane Alfenas Zerbini
Saberes ancestrais na preservação da biodiversidade

Banco de Sementes Tradicionais
Rosemary Vilaca (Embrapa)
O projeto de instalação de Bancos de Sementes Tradicionais em territórios Yanomami, coordenado pela pesquisadora Rosemary Vilaca, articula ciência, saberes tradicionais e sustentabilidade. Por sua vez, ele fortalece a soberania alimentar e contribui para a preservação da biodiversidade e dos sistemas agroflorestais.
Assim, com a junção do conhecimento científico e práticas ancestrais, o projeto amplia a segurança alimentar das comunidades indígenas e promove modelos de desenvolvimento alinhados à justiça socioambiental.
Desse modo, o protagonismo feminino se expressa na valorização de saberes coletivos e na construção de soluções científicas que respeitam a diversidade cultural e ambiental do país.
“Como mulher na ciência, minha trajetória sempre foi guiada não apenas pela paixão pelo conhecimento, mas também pelo desejo de impactar positivamente a sociedade. Ao longo da minha carreira, enfrentei desafios, mas também vivi oportunidades que transformaram minha visão sobre o papel das mulheres na pesquisa.
A liderança feminina em projetos de pesquisa é fundamental não só para a promoção da igualdade de gênero, mas também para o enriquecimento da ciência com perspectivas diversas. Nesse percurso, pude liderar projetos voltados à inovação, à inclusão e ao empoderamento de outras mulheres.
Aqui, buscamos construir ambientes de trabalho que sejam colaborativos e inspiradores. Essa iniciativa da Funarbe é um exemplo poderoso de como podemos inspirar e apoiar a próxima geração de cientistas — meninas e mulheres — garantindo o protagonismo feminino para que ele se torne cada vez mais presente e relevante no campo científico.
Afinal, nós, mulheres, já somos protagonistas na criação da vida; nossa participação na ciência, portanto, é fundamental.”
— Rosemary Vilaca (Embrapa)
Protagonismo feminino e o futuro da ciência
Os projetos apresentados evidenciam que a liderança feminina na ciência produz impactos que vão além do campo acadêmico, alcançando políticas públicas, inovação tecnológica, sustentabilidade e inclusão social. Ao ocupar espaços estratégicos na pesquisa, mulheres ampliam o repertório de soluções e contribuem para respostas mais complexas e efetivas aos desafios contemporâneos. Com isso, no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o protagonismo feminino reafirma a necessidade de construir um ambiente científico mais diverso, equitativo e conectado às demandas da sociedade. Assim, o papel das fundações de apoio à pesquisa se torna fundamental para garantir condições estruturais, técnicas e institucionais que permitam às mulheres não apenas acessar a ciência, mas liderá-la.
Portanto, ao apoiar e viabilizar projetos coordenados por mulheres, a Funarbe atua como ponte entre conhecimento, inovação e sociedade, evidenciando que investir na liderança feminina é investir no futuro da ciência.
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